HQs, Quadrinhos

[Review] Um Faroeste Moderno e Brutal, conheça “O Xerife da Babilônia”

 

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“Então, exclamou com potente voz, dizendo: caiu! Caiu a grande babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável.” Apocalipse, 18:2.

A citação mencionada é o único texto presente na cena de apresentação – em duas páginas – do quadrinho, aonde dois soldados encontram o corpo de um cadete da polícia iraquiana próximo ao Arco da Vitória (um monumento em forma de duas espadas cruzadas, seguradas por mãos feitas em semelhança as de Saddam Hussein, símbolo do governo violento e opressor do ditador). A imagem cria impacto com suas interpretações, desde o tom sépia, a citação e o ambiente de fim de mundo de um dos lugares que um dia foi chamado de Cidade da Paz. E posteriormente se mostrando um thriller investigativo de alta qualidade narrativa.

Somos situados em Bagdá, em fevereiro de 2004 (doze meses depois da queda de Saddam Hussein), aonde as vidas de três pessoas se cruzam por causa de um assassinato dentro da zona verde controlada pelos americanos. Conhecemos Christopher – um ex-policial prestando serviços para os militares americanos -, o responsável pelo treinamento da nova força policial iraquiana, que é avisado sobre o assassinato brutal de um de seus recrutas. Em um país onde as autoridades estão quebradas, Chris é o único interessado em descobrir o culpado pelo crime. Posteriormente, Chris pede a ajuda de Sofia, uma iraquiana criada nos EUA que faz parte do conselho do governo. Sofia entra em contato com Nassir, um dos últimos investigadores da antiga força policial de Saddam.

 

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Nassir, Sofia e Christopher. Caminhos cruzados pela violência

“Não vim aqui para pedir o caminhão. Eu já estou com ele. E o seu primo, Ali, que ajudou, que dirigiu? Ele está morto. E o seu irmão mais novo, Farid, que foi quem nos contou onde o caminhão estava, também está morto. Ah, e o seu irmão mais velho, Hassan, o gordo, quase me esqueci. Ele também… Sua esposa e filhos estão bem, é claro. Estou com eles. Vou manter todos em segurança. Espero que isso sirva de consolo. Você devia se conformar. Pelo menos eles não tiveram que assistir pela tevê.” Sofia, ao executar o líder de uma pequena gangue.

Com um crime unindo seus caminhos, os três precisam cooperar um com o outro para esclarecer as causas do assassinato, que começa a se provar apenas o começo de algo muito maior, fazendo com que suas histórias cruzadas não sejam tão coincidência assim. Justiça e ambição entram em conflito na mente dos personagens, que julgam fazer o certo só que de maneiras bem distintas e para cumprir seus próprios objetivos.

O autor Tom King é ex-agente da CIA, e se inspirou em suas experiências em campo no Iraque para compor essa trama tão real, suja e violenta, sobre as visões do invasor e do invadido, em um mundo que gira em torno do dinheiro e do poder. Os diálogos cruzados entre os diversos personagens mostram a rede complexa que liga tanto americanos e famílias poderosas de toda a cidade. Na apresentação de Chris, Sofia e Nassir, sabemos rapidamente o que os motiva, e o mais cru é ver como isso é mostrado. Chris vê uma mulher, suspeita de carregar bombas, ser morta pelos militares na sua frente em um restaurante; Sofia interage com os vários núcleos de poder da cidade até chegar na raiz de um problema em questão, aonde resolve executando friamente um mafioso; Nassir teve suas três filhas mortas em uma operação americana, e aqui vemos ele executando três soldados, responsáveis pela morte das filhas. Dever, poder e vingança, três sentimentos ligados ao desespero de uma cidade que desmorona pouco a pouco em torno deles.

“Eu oro, mas não creio que Deus escute. Eu sigo Maomé, mas não sei por onde ele anda. Sou um servo de nosso grande líder Saddam Hussein. Mas onde está nosso grande líder Saddam Hussein? Sou um servo da América, os nossos salvadores. Mas onde está a América, os nossos salvadores? Sou um policial, um homem da lei, mas não há lei… Eu não tenho mais filhas.” Nassir, no momento que ficou cara a cara com os soldados responsáveis pela morte de suas filhas.

O roteiro investigativo lembra um pouco o de True Detective, com argumentos sobre a condição humana em um mundo de violência e pessimismo. E como um bom thriller que se preze, a tensão é surreal, você sente a necessidade daquilo tudo se resolver logo, mas também quer desvendar todas as pistas que King coloca na narrativa, nada é o que parece ser, e nenhuma fala é dita a toa, a atenção é algo indispensável nessa obra. Os protagonistas correm perigo todo o tempo, e a apreensão de um atentado acontecer ali, do nada, é algo que o autor gosta de brincar.

A arte de Mitch Gerads é incrivelmente cinematográfica, com sequencia visual bem posicionada em diálogos, com boas noções de movimentos e cenas truncadas, elevando a experiência que a leitura lhe ocasiona. Percebemos um detalhismo minucioso do desenhista ao retratar seus personagens individualmente, sejam suas roupas, suas expressões faciais, o ambiente em torno deles, etc. Os quadros são limpos e organizados, sem ângulos exagerados (lembram da sequência de nove quadros utilizada em Watchmen?!?!).

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Tom King (na esquerda) e Mitch Gerads (na direita)

“Você afirma que não é americana. Mas fala igual a eles. Todos eles. Uma praga. Crianças. Somos crianças, então? Eu já tive filhas. Eu as vi adoecer. Cuidei delas e as vi morrer. Não somos crianças caminhando. Somos iraquianos. Fomos prejudicados. E vamos prejudicar aqueles que fizeram isso. Não como uma criança. Nem mesmo como um homem. Mas feito uma mulher. Igual a uma mãe.” Fátima (esposa de Nassir) mostrando sua motivação no mundo após ser confrontada por Sofia.

Com um roteiro bem dinâmico e uma arte em tons espetaculares, Tom King e Mitch Gerads criaram um faroeste moderno brutal. Um “noir” letal, cheio de reviravoltas e personagens singulares, que já devia ter recebido algum prêmio em honra a sua qualidade. Um prato cheio para todo fã de quadrinhos, e principalmente para quem é louco por filmes policiais.

“The Sheriff of Babylon” (no original), foi publicado em 12 edições durante 2016-2017 pelo selo Vertigo, da DC Comics. Aqui no Brasil a editora Panini já publicou o primeiro volume, contendo as 6 primeiras edições, intitulada “O Xerife da Babilônia Vol.01: Bang. Bang. Bang.”, e você pode adquirir clicando aqui.

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